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2017-02-13 às 23h42

Autoridades centro africanas e ONU «manifestam uma grande expectativa e confiança» nas Forças Armadas portuguesas

Primeiro-Ministro António Costa com os responsáveis da missão das Nações Unidas na República Centro Africana, Bangui, 13 fevereiro 2017 (Foto: Paulo Vaz Henriques)

O Primeiro-Ministro António Costa afirmou que as autoridades da República Centro Africana e os responsáveis político e militar das Nações Unidas no país «manifestam uma grande expectativa e confiança no profissionalismo e no prestígio das nossas Forças Armadas, de todos aqueles que aqui servem», no segundo dia da sua visita às forças nacionais destacadas no país.

O Primeiro-Ministro foi recebido pelo Presidente da República Centro Africana, Faustin Archange Touadera, e reuniu-se com o Primeiro-Ministro Simplice Mathieu Sarandji, o representante do secretário-geral das Nações Unidas, Parfait Onanga-Anyanga, o comandante da Missão Integrada Multinacional de Estabilização das Nações Unidas na República Centro Africana, Balla Keita, e o comandante da Missão de Treino da União Europeia, Herman Ruys.

António Costa visitou as tropas portuguesas que integram a missão da ONU (e também a missão da União Europeia) na República Centro Africana. A missão inclui militares da Força Aérea e de várias unidades do Exército e tem «como coluna vertebral o regimento de Comandos, que, com notável profissionalismo, tem prestigiado as Forças Armadas e que, com esta missão, vai voltar a fazê-lo».

Operação de grande complexidade

O Primeiro-Ministro disse que a operação «tem o seu risco» e é «de grande complexidade, porque não se trata de um cenário de guerra normal, mas de conflitos armados com vários bandos».

Mas «com o profissionalismo, a motivação, a capacidade do seu comando e o enquadramento que têm na Missão das Nações Unidas, temos todas as condições para desempenhar esta missão que honrará Portugal», sublinhou.

Com esta participação, Portugal ajuda à «estabilização de um país africano, contribuindo para que a paz e o desenvolvimento permitam combater na raiz esta vaga de fluxos refugiados, que só neste país [com menos de cinco milhões de habitantes] tem quase um quarto da população ou deslocada ou refugiada».

Portugal cumpre também «o dever de ser solidário com países amigos, como a França», que, na sequência dos atentados terroristas de Paris de novembro de 2015, pediram apoio para poderem retirar as suas tropas da República Centro-Africana e enviá-las para o combate ao direto terrorismo.

Militares têm condições para a missão

O Primeiro-Ministro afirmou que os 160 militares portugueses aquartelados em Bangui, a capital do país, têm condições operacionais para poderem desempenhar plenamente a missão ao serviço das Nações Unidas na República Centro-Africana.  

«Tivemos a oportunidade de estar com todos, de pernoitar nas suas instalações, de partilhar as refeições, de ver as condições em que estão aqui instalados e ver que estão em condições operacionais para poderem desempenhar plenamente a missão ao serviço das Nações Unidas», disse António Costa.

O contingente deverá começar a desempenhar missões no terreno, após uma primeira fase de adaptação e preparação.

Acompanharam o Primeiro-Ministro, o Ministro da Defesa Nacional, José Azeredo Lopes, e o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, general Pina Monteiro.

República Centro Africana quer regresso dos portugueses

O Presidente da República Centro-Africana, Faustin Archange Touadera, recebeu o Primeiro-Ministro português, tendo discutido, entre outros assuntos relacionados com a estabilidade na região, oportunidades para aprofundar a cooperação bilateral.

O Presidente Touadera agradeceu a Portugal o envio de militares para as missões da ONU e da UE, que irão «desempenhar um papel importante para o regresso da paz e da estabilidade» no país, salientando a «grande capacidade e grande experiência, sobretudo no domínio operacional» dos militares portugueses.

Convidou também os portugueses a regressar ao país, onde tiveram uma presença importante até há cerca de três décadas, tendo-o abandonado progressivamente – hoje há apenas oito portugueses – devido à instabilidade.

«Na história do nosso país, havia muitos portugueses que trabalhavam aqui, que desenvolveram o comércio, atividades, grandes plantações de café», afirmou o Presidente numa declaração à agência Lusa, acrescentando «desejamos que esta população possa regressar».

«Sabemos que Portugal desenvolveu uma grande experiência e excelência nas infraestruturas. O país precisa de construção e poderia beneficiar desta experiência», acrescentou o Presidente da República Centro-Africana.

ONU elogia contributo português

O representante da ONU para a República Centro-Africana, Parfait Onanga-Anyanga, disse esperar «que este ano seja o ano em que haja um avanço decisivo para a paz neste país», numa declaração à agência Lusa após a reunião com o Primeiro-Ministro português.

Parfait Onanga-Anyanga disse que «a situação melhorou drasticamente, se compararmos com o momento em que iniciámos esta missão, em setembro de 2014, mas temos de reconhecer que ainda há bolsas de instabilidade, que exigem uma resposta». «O contributo adicional» das Forças Armadas portuguesas «será essencial para responder a estes problemas» que persistem em várias regiões.

As Nações Unidas estão presentes desde setembro de 2014, com um efetivo de mais de 11 mil elementos, no qual Portugal participa, desde janeiro passado, com 160 militares, dos quais 110 são comandos, e com 11 militares na missão da União Europeia, vocacionada para a formação das Forças Armadas centro africanas.

A intervenção das Nações Unidas e da França permitiu acabar com os massacres, eleger um novo Presidente e o regresso de uma calma relativa à capital, Bangui. No entanto, grupos armados mantêm um clima de insegurança permanente em várias regiões do país.

Processo político

Ao mesmo tempo que a ONU procura travar a violência e a UE formar as Forças Armadas, o Presidente Touadera, eleito Chefe de Estado há quase um ano, lançou um processo político de diálogo com os grupos armados.

Na declaração à Lusa, o Presidente apelou para que os grupos armados se sentem «à mesa das conversações para que a população possa regressar à calma». «Devemos todos juntarmo-nos para ver como podemos reconstruir o país, porque a última crise destruiu tudo e por isso é preciso recomeçar do zero. Para isso, é preciso dialogar com os responsáveis dos grupos armados», disse.

«Convidámos todos os grupos armados» para o processo de pacificação, disse o Presidente. «Atualmente, dos 14 grupos identificados, 12 responderam ao nosso apelo e as coisas desenrolam-se normalmente. Há dois grupos que continuam a não enviar pessoas e continuamos o trabalho para que possam vir», afirmou, destacando o contributo da União Africana e de Angola no processo.

Com uma população de cerca de cinco milhões de pessoas, a República Centro-Africana tem mais de 400 mil refugiados nos países vizinhos e outros tantos deslocados internamente, na sequência dos confrontos armados que eclodiram no país em 2013, e que também causaram milhares de mortos. 

 

Foto: Primeiro-Ministro António Costa com os responsáveis da missão das Nações Unidas na República Centro Africana, Bangui, 13 fevereiro 2017 (Foto: Paulo Vaz Henriques)