Portugal participou na Cimeira União Europeia-União Africana (UE-UA) com o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, e o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. O encontro, dedicado a "promover a paz e a prosperidade através de um multilateralismo eficaz", contou com a participação de 80 delegações.
Um dos documentos aprovados foi a Declaração de Luanda, o que marca um novo capítulo nas relações entre os dois continentes. Este destaca o compromisso na defesa do comércio livre e da migração regular, apela a reformas institucionais globais e estabelece mecanismos para transformar a dívida africana em oportunidades de desenvolvimento.
A Cimeira deixou uma mensagem clara: Europa e África querem trabalhar juntas para construir um futuro mais justo e próspero.
Comércio justo e migração segura
Os líderes europeus e africanos comprometem-se a defender o comércio livre, rejeitando barreiras protecionistas que prejudicam ambos os blocos. Em paralelo, assumem o compromisso de combater a migração irregular e o tráfico humano, protegendo pessoas vulneráveis que caem nas mãos de redes criminosas.
Este equilíbrio é fundamental: abrir portas ao comércio e às migrações regulares, mas fechar caminho à exploração e ao tráfico.
Dívida africana: da reestruturação à conversão
Sobre a dívida africana, a declaração é realista e honesta. Reconhece os "esforços fiscais" que os países africanos fazem para honrar as suas obrigações, mas admite também as graves dificuldades de liquidez que enfrentam.
O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, defendeu que a conversão da dívida é o caminho mais viável. "Mais do que a reestruturação ou perdão puro e simples, a conversão da dívida tem pés para andar", afirmou.
Paulo Rangel explicou que, embora a reestruturação ou o perdão possam ser necessários em casos específicos, a solução estrutural passa por reformas na arquitetura financeira mundial. "Muitos países estão disponíveis para este instrumento, isto é, compreendem que não sendo possível um perdão, (.) puro e simples, não sendo possível uma reestruturação - o que não quer dizer que num caso ou outro ela não tenha de ser feita, porque isto também depende do quadro macroeconómico de cada país -, o que se está a pensar, essencialmente, é na conversão, porque a conversão da dívida é mais fácil para os países que são credores e, por outro lado, traz muito valor acrescentado para os países que são devedores".
Paz em múltiplas frentes
Os líderes manifestam "apoio inabalável a uma paz justa, abrangente e duradoura" em várias regiões: Ucrânia, territórios palestinianos, Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sahel e Somália.
UE e UA comprometeram-se ainda a reforçar a cooperação no combate ao terrorismo, crime organizado e cibersegurança.
Reformas globais
O ponto mais ambicioso da declaração diz respeito às reformas nas instituições internacionais. Europa e África querem mudar:
- A Organização Mundial do Comércio (OMC);
- O Conselho de Segurança da ONU;
- A arquitetura financeira mundial.
A declaração também apela ao "reconhecimento do legado histórico de escravatura, colonialismo e apartheid" e à restituição de bens culturais africanos.
Energia limpa e conetividade para transformar vidas
UE e UA acordaram em acelerar investimentos em energia verde, transportes e conectividade digital. O objetivo é claro e ambicioso: garantir eletricidade limpa para 100 milhões de africanos até 2030.
Comprometem-se também a reformar a arquitetura global da saúde e a apoiar a produção local africana de medicamentos, reduzindo a dependência de importações caras e reforçando a autonomia sanitária do continente.
A próxima Cimeira terá lugar em Bruxelas, Bélgica, dando continuidade aos compromissos assumidos em Luanda.