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Notícias

2020-11-30 às 16h30

Relações entre Portugal e os EUA vão muito para além da defesa

Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva
O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, afirmou que a relação entre Portugal e os Estados Unidos da América vai muito para além da área da segurança e defesa, numa entrevista ao podcast «Atlantic Talks» (Conversas Atlânticas), da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

O Ministro destacou três áreas em que as relações entre Portugal e os EUA, se têm desenvolvido nos últimos anos: a cooperação científica e universitária entre estabelecimentos de ensino superior; o investimento dos EUA em bancos ou em setores tecnológicos; e a existência de «mais de um milhão de portugueses e luso-americanos que vivem nos Estados Unidos».

«Durante muito tempo – e excessivamente, na minha opinião – olhou-se para a relação entre Portugal e os Estados Unidos como ‘as Lajes’», disse o Ministro. 

«Basta olhar para o mapa»

Mas, mesmo no aspeto de defesa e segurança, Santos Silva afirmou que Portugal deve explorar os laços de proximidade com os Estados Unidos e o valor estratégico do seu território, no espaço do Atlântico Norte, onde a NATO desempenha um papel fulcral.

«Do nosso ponto de vista, os Estados Unidos têm um interesse evidente em ter uma boa cooperação com Portugal nos Açores. Basta olhar para o mapa para percebê-lo», disse, lembrando que, das duas vezes que falou com conselheiros de segurança nacional do Governo de Donald Trump (o general Herbert McMaster e John Bolton), «a conversa foi muito fácil, porque, em ambos os casos, eles tinham mapas na parede…».

O Ministro disse que, com o Governo de Donald Trump, houve progressos no entendimento entre Portugal e os EUA, relativamente a executivos anteriores. «E um dos progressos que houve foi no que diz respeito às Lajes». 

«Porque, nenhuma redução ulterior» da presença norte-americana nos Açores «foi sequer planeada. Foi possível tratar de questões pendentes (…) de uma forma amigável entre aliados», referiu.

Santoa Silva lembrou que o desinvestimento dos EUA na Base Aérea das Lajes decorreu de equívocos em Governos anteriores aos que neste momento dirigem os destinos dos dois países.

«Havia uma ambiguidade quando eu cheguei a Ministro dos Negócios Estrangeiros. Uma ambiguidade infeliz causada em primeiro lugar pela infeliz decisão norte-americana de reduzir o contingente na base das Lajes e pela reação, também infeliz, do Governo português de então que sugeriu ? e estou a ser diplomático - que se os Estados Unidos não queriam as Lajes, podia haver outros países que a quisessem», lembro Santos Silva, rejeitando que Portugal possa colocar as Lajes «a leilão».

A Base das Lajes deve ser vista como um ativo estratégico importante de Portugal, para ser tratado com «em cooperação com os aliados», pois «Portugal tem parceiros em todo o mundo, mas só tem aliados na União Europeia e na NATO», disse ainda.

Relações UE-EUA

O Ministro disse também que o Governo de Donald Trump trouxe algumas «involuções» nas relações dos EUA com os seus aliados, mas tem a «convicção profunda» de que, agora, «Estados Unidos e Europa vão regressar ao nível de diálogo e cooperação que tem existido há décadas».

Santos Silva afirmou que a Europa deve ter uma atitude ativa no novo relacionamento com os Estados Unidos, recordando, por exemplo, que «a Europa não é neutra» na disputa entre os Estados Unidos e a China, pois «está muito mais próxima dos EUA».

«O facto de não sermos neutros, não quer dizer que não sejamos autónomos. Aliás, temos um entendimento da China e da nossa relação com a China que não pode ser reduzido a uma única dimensão, como foi característico da Administração Trump», acrescentou.