Funeral de Estado de Mário Soares, 10 janeiro 2017
 
2017-01-10 às 13:29

DISCURSO DO PRIMEIRO-MINISTRO NA SESSÃO SOLENE EVOCATIVA DE HOMENAGEM AO PRESIDENTE MÁRIO SOARES

O Primeiro-Ministro António Costa proferiu o discurso seguinte na sessão solene evocativa de homenagem ao Presidente Mário Soares. O discurso foi gravado na Índia, onde o Primeiro-Ministro se encontra em visita oficial:

«Senhor Presidente da República,

Senhor Presidente da Assembleia da República

Excelências,

Familiares, amigos, admiradores e camaradas de Mário Soares

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Cara Isabel, Caro João,

Entregamos hoje às gerações futuras a memória de um grande português de quem tivemos o privilégio e a honra de ser contemporâneos. Mário Soares construiu a história e, por isso, a história guardará o seu nome, a sua obra, o seu exemplo.

É um exemplo de combate constante por aquilo em que acreditava. É um exemplo de coragem de dizer o que pensava e de fazer o que devia, ainda que fosse o único a dize-lo e a faze-lo, mesmo que ficando por uns tempos, apenas por uns tempos, sozinho. É um exemplo de génio político, que alcançava o que parecia impossível de alcançar. É um exemplo de amor à vida e de energia criadora. É um exemplo de político que, até ao fim, se assumiu integralmente como tal, consciente de que a política, feita com idealismo e convicção, é uma das mais nobres atividades humanas, por ser um serviço prestado à comunidade e ao país: “Unir os portugueses. Servir Portugal”, como dizia um dos seus lemas.

Evocar Mário Soares, prestando-lhe homenagem no momento da sua morte, é falar da sua vida, porque foi sempre em nome da vida – e da liberdade que a enaltece – que ele lutou, sofreu, agiu, transformou, edificou, viveu.

Filho de um grande pedagogo, republicano idealista e resistente contra a ditadura, Soares foi educado nos valores que, atualizados pela evolução das ideias e do mundo, foram sempre os da sua vida: liberdade, igualdade, fraternidade.

Republicano, laico e socialista, assim se disse e assim se quis. E poderíamos acrescentar: humanista universalista – português, europeu e cidadão do mundo. Na sua ação, Soares aliou sempre idealismo e realismo, convicção e ação, política e cultura, consciência da história e das lições do passado com visão criadora e ambiciosa do futuro.

Como já se disse, Soares pode ter-se enganado às vezes no acessório, mas nunca se enganou no fundamental. E o fundamental para ele era a visão que tinha do país, da Europa e do Mundo.

Acreditou sempre que Portugal é uma grande Nação, com uma grande história, embora, na linha de António Sérgio, seu mestre, distinguisse nela duas tradições antagónicas: a democrática, aberta e progressista; e a obscurantista, reacionária e autoritária.

Ele era orgulhosamente herdeiro da primeira e foi em nome dela que fez política. Lutou sempre por um país livre e democrático, com desenvolvimento e justiça social, consciente do seu lugar no mundo e da importância da sua situação geoestratégica, do seu mar, da sua língua, da sua cultura, dos seus laços com outros povos.

Lutou por uma Europa como comunidade de ideais e de valores, fundada na igualdade dos seus membros, na partilha de objetivos e interesses, na solidariedade e na cooperação, capaz de ser uma grande força de paz e de progresso no mundo do século XXI.

Foi em nome dessa visão, que Soares exerceu os mais altos cargos e assumiu as maiores responsabilidades.

Resistente à ditadura, deportado, exilado, fundador e Secretário-Geral do Partido Socialista, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro, vice-presidente da Internacional Socialista, deputado, líder da oposição, Presidente da República, Presidente do Movimento Europeu, deputado ao Parlamento Europeu, Presidente da Comissão Mundial dos Oceanos, Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Presidente da Fundação de seu nome, autor de dezenas de livros, em todas as condições e circunstâncias, Soares foi inspirado por essa grande visão humanista.

Com ela, configurou o Portugal democrático e foi o autor das suas opções fundamentais, tornando-se o principal fundador da Democracia Portuguesa e um dos portugueses mais prestigiados no Mundo. Com essa visão, construiu o Estado de direito social e fez reformas que tornaram Portugal um outro e melhor país.

Mário Soares foi, em momentos decisivos, o rosto e a voz da nossa liberdade. Desse título, que era certamente aquele que mais lhe agradava, raros homens se podem orgulhar.

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Em Mário Soares, o homem público era inseparável do homem privado. Quem o conheceu não esquece o seu amor pela vida e pelas suas coisas boas. A sua coragem ímpar e a sua tenacidade inabalável. A sua cultura viva e vivida. A sua audácia criadora e a sua astucia divertida. A sua energia, que mobilizava e inspirava. O seu otimismo que nunca desistia e as suas gargalhadas contagiantes. A sua capacidade de prever e advertir. As suas fúrias terríveis e passageiras. A sua avidez de viver, de conhecer, de descobrir, de encontrar. A sua grandeza e a sua sabedoria.

Grande contador de histórias, conversar com ele era uma experiência exaltante, inesquecível. A sua capacidade humana de comunicar era a outra face da sua aptidão política de convencer.

Em suma, como tantos dissemos muitas vezes, "Soares é fixe!".

Agora, como num filme, vemos as imagens de uma vida que foi também, em muitos momentos, a nossa vida, a vida de todos nós. A militância no MUD Juvenil, a sua participação nas campanhas dos Generais Norton de Matos e Humberto Delgado, a sua partida para a deportação em S. Tomé e a carga policial que se abateu sobre os manifestantes no aeroporto, a campanha da CEUD em 1969, a fundação do PS em Bad Munstereifel, a chegada a Santa Apolónia, o primeiro 1º de Maio, o comício da “Europa Connosco”, a Fonte Luminosa, a maratona do debate do programa do I Governo Constitucional na Assembleia da República , a assinatura, neste claustro em que o homenageamos , do Tratado de Adesão de Portugal à CEE, a Marinha Grande, a vitória na eleição presidencial de 1986, as Presidências Abertas e depois, de novo, as manifestações contra a guerra no Iraque, o jantar dos seus 80 anos, as sessões cívicas na Aula Magna da Universidade de Lisboa para defender a Constituição.

Senhor Presidente da República,

Senhor Presidente da Assembleia da República

Altas Autoridades

Familiares, amigos, admiradores e camaradas de Mário Soares

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Despedimo-nos de Mário Soares neste lugar histórico e simbólico da realização de um dos grandes acontecimentos da nossa história contemporânea, de que ele foi o protagonista: a nossa entrada na Europa. Ele quis, como ouvimos, ligar esse acto à nossa história e ao nosso pioneirismo nas Descobertas, que nos tornou um dos grandes países fundadores do mundo moderno. Neste claustro, está também o túmulo de Fernando Pessoa, que para aqui foi traslado por sua iniciativa, quando era Primeiro-Ministro.

Podemos, por isso, afirmar que, neste lugar cheio de significado e ressonância, reencontramo-nos com a sua vida e com a memória coletiva do que nunca esqueceu, a nossa História e a nossa Cultura.

Nesta hora de luto nacional, quero, como Primeiro-Ministro de Portugal e seu amigo, testemunhar o nosso afeto e a nossa gratidão comovida por tudo o que Mário Soares foi e por tudo o que Mário Soares fez.

Evoco também, neste momento e com um pensamento de saudade, a figura ímpar e inseparável de Maria de Jesus Barroso. Dirijo à Família, ao João e à Isabel, aos netos, a minha solidariedade amiga.

A única consolação que podemos ter, nesta hora de tristeza, é a de que, para homens como Mário Soares, a morte existe menos do que para os outros. Da lei da morte, como disse Camões, eles se libertaram pelas obras valorosas da sua vida.

Com a memória de Mário Soares presente em nós, continuaremos o seu combate por um Portugal melhor.

Obrigado, Mário Soares.
Viva a Liberdade!
Viva a República!
Viva Portugal!»

 

Foto: Intervenção do Primeiro-Ministro na sessão solene evocativa de homenagem ao Presidente Mário Soares, Lisboa, 10 janeiro 2017

Discurso do Primeiro-Ministro na sessão solene evocativa de homenagem ao Presidente Mário Soares Tags: primeiro-ministro