A encerrar a segunda fase da primeira edição de «O Meu
Movimento», as sete moções finalistas desta iniciativa reuniram-se
hoje na escola secundária Vergílio Ferreira, em Lisboa, para um
debate de ideias com a moderação do jornalista João Adelino
Faria.
O Movimento do Sérgio, pela abolição das corridas de touros,
defende que estas devem ser banidas da sociedade civil, acabando de
uma vez com aquilo que o autor considera um espetáculo pouco digno,
tanto para os homens (que se divertem à custa do sofrimento dos
animais), como para estes (pelas sevícias de que são
vítimas). Apesar de estar desempregado, Sérgio considera que esta é
uma causa prioritária por que se bater, já que estão em causa os
direitos dos animais e vivemos, atualmente, numa sociedade
civilizada. «A pensar nisso [noutros temas prioritários], isto
nunca se discutia», remata Sérgio.
Pela defesa da disciplina de Educação Visual e Tecnológica
(EVT), o presidente da Associação dos Professores de EVT (Apevt),
José Alberto, dá a cara. E lamenta: «Criada com a reforma
curricular de 1991, a cadeira estava agora a consolidar-se e querem
acabar com ela». Já tendo, por diversas vezes, chegado à fala com
dirigentes da área da Educação, a Apevt nunca teve - porém - o
sucesso pretendido. Com a esperança que, não estando ainda vertido
em Decreto-Lei o texto final da proposta legislativa que levará à
extinção da disciplina, «e sendo um otimista», o Governo possa
recuar, José Alberto pretende chamar a atenção para a importância
que as matérias que leciona têm na formação dos alunos como
cidadãos.
Em representação do movimento da Tânia, Cristina pretende a
regulamentação da profissão de psicomotricista. Explicando que
estes profissionais «veem o ser humano no seu todo», são pessoas
que tratam, desde crianças precoces a dificuldades na aprendizagem,
reabilitação social e saúde mental, entre outros problemas. Em
suma, ajudam um leque vasto de pessoas de várias idades com vários
tipos de dificuldades. Tendo já sido recebidos por membros dos
ministérios da Saúde e da Educação, creem que uma audiência com o
Primeiro-Ministro poderia ser o impulso necessário para atingir o
seu objetivo.
O movimento do João, de que a escola é para ensinar e a família
educa, afirma que «não se podem transferir para a escola
responsabilidades que são da família». Admitindo que «a escola
também educa», João diz que isso acontece «mas no sentido de
desenvolver os valores que a família tem de dar». E porque,
exatamente, hoje em dia as escolas têm essa dupla função - de
ensinar e de educar - ficam muito limitadas naquela que é a sua
tarefa primordial (a do ensino). Assim, João defende que a educação
na escola se restrinja apenas às famílias destruturadas, que não
têm possibilidade de acompanhar os filhos.
A Vera defende, no seu movimento, o fim do uso dos animais em
circo. Argumentando que «esta é apenas uma parte do espetáculo», a
autora acrescenta que «pode haver mais atrações no circo, para além
dos números com animais». Sobre a eventualidade de abrir exceções a
animais que, pela sua natureza, sejam mais domésticos, Vera é
clara: «Gostava que fossem proibidas todas as espécies de animais
nos circos, porque abrir exceções nunca funciona, a nível de
fiscalização».
Pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), Emanuel
criou um movimento que quer uma distribuição mais disseminada e uma
carga horária mais pesada para esta disciplina. «É uma cadeira mal
compreendida, porque há duas gerações diferentes, uma de imigrantes
digitais, que se sentem desconfortáveis porque nasceram mais perto
da dimensão analógica), e os nativos digitais», explica o docente.
Defendendo que estas competências têm sido aprendidas à custa dos
próprios alunos, através daquilo a que apelida de «educação
informal», Emanuel diz que as TIC devem ser lecionadas no 5.º, 7.º
e 10.º anos de escolaridade, para que não se criem, nos alunos,
vícios de forma nos vários estados de aprendizagem. «Numa altura
como a que vivemos, dotar os alunos de ferramentas intermédias é
essencial para tornar esta geração competitiva».
Dos irmãos Máximo, Luís e João, vem o movimento que
defende a possibilidade de dar resposta
à difícil situação económico-financeira das nossas
universidades, através da aplicação de um modelo existente no
ensino superior de alguns países do centro e leste europeu, onde
estudantes portugueses pagam entre cinco a 10 mil euros em
valor anual de propinas. Através da criação de vagas suplementares
no acesso ao ensino superior, suportadas na totalidade pelos
alunos, seria possível aproveitar esse
investimento financeiro para manter a qualidade do
ensino, a manutenção dos centros de investigação, evitar a fuga de
"massa cinzenta" e, mesmo, uma redução do valor das propinas nos
alunos que entram pelo regime normal.
Da plateia, que contava com cerca de 200 alunos da escola,
surgiram questões dirigidas aos vários movimentos:
- (Movimento dos irmãos Máximo) Mas as empresas não valorizam
mais uma experiência no estrangeiro?
- (Movimento da Tânia) Quais as mais-valias para os beneficiários
da psicomotricidade?
- (Movimento da Apevt) Qual o futuro do ensino artístico e
tecnológico?
- (Movimento da Vera) Qual o fim dos animais de circo se estes
acabarem?
- (Movimento do Sérgio) A abolição das corridas de touros não
atiraria muitas pessoas para o desemprego?
- (Movimento do Sérgio) Existe alguma atividade passível de
integrar os touros de lide mas onde os animais não sofram?
- (Movimento do Emanuel) O programa das TIC justifica uma
extensão da disciplina para três anos letivos?
- (Movimento dos irmão Máximo) Como captar os alunos para
faculdades nacionais se as internacionais são, em geral, mais
garantísticas de emprego para o futuro?
- (Movimento da Vera) Não é possível fazer circo sem animais em
sofrimento?
- (Movimento do João) Com tanto desemprego, como é que ainda se
vai propor uma redução no horário laboral dos pais para que estes
acompanhem a educação dos filhos em casa (já que a escola «só» os
ensina)?
«O Meu Movimento» foi uma iniciativa que arrancou no dia 9
de janeiro de 2012, tendo sido submetidos, até ao dia 29 de
fevereiro, mais de mil movimentos.
No dia 1 de março foram apresentados os sete movimentos mais
votados. A votação ainda decorre para apurar o movimento que irá
reunir com o Primeiro-Ministro.