Doutoramento honoris causa, 15 dezembro 2011
 
2011-12-15 às 18:38

GOVERNO PRETENDE LEVAR A CABO «VERDADEIRA DEMOCRATIZAÇÃO» DA ECONOMIA

O Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho afirmou que o Governo pretende levar a cabo uma «verdadeira democratização» da economia nacional, no sentido da «harmonização» entre os objetivos políticos da democracia portuguesa e o funcionamento da economia. «Confrontar o seu funcionamento deficiente é constatar que a nossa economia, em muitos aspetos, espera ainda um processo de verdadeira democratização. Quando falamos em reformas estruturais é, numa palavra, esta democratização que pretendemos atingir», acrescentou ao intervir na cerimónia do 38.º aniversário da Universidade de Aveiro.

As reformas representam «um grande pacto» entre o Estado e a sociedade, que o Governo quer discutir «com todos». «Mas, certamente, que quem quer deixar tudo na mesma, quem não está disponível para a mudança, quem faz propostas que não representam verdadeiras escolhas mas exercícios de fantasia, quem quer deixar o País entregue ao declínio, à pobreza e ao isolamento não estará interessado em ouvir o que temos para dizer», acrescentou.

Na cerimónia de aniversário, a Universidade de Aveiro agraciou com o grau de doutor honoris causa os arquitetos Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura e Alcino Soutinho, autores de cinco edifícios do campus universitário.

Discurso do Primeiro-Ministro no 38.º aniversário da Universidade de Aveiro

Magnífico Reitor da Universidade de Aveiro,
Senhoras e senhores Professores,
Caros Alunos

Permitam-me que comece por dizer que é um grato prazer poder estar aqui a participar convosco nas comemorações do 38.º aniversário da Universidade de Aveiro, ainda para mais quando são concedidas altas honras académicas a três mestres da arquitectura portuguesa, o arquiteto Alcino Soutinho, o arquitecto Álvaro Siza Vieira e o arquiteto Eduardo Souto Moura.

Hoje podem ser admirados, no campus da Universidade de Aveiro, edifícios da autoria de Alcino Soutinho, Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura, Pedro Ramalho, Luís Ramalho, Rebello de Andrade, Gonçalo Byrne, Figueiredo Dias. Entre muitos outros. Julgo que este é mesmo o único local onde se podem ver obras de dois prémios Pritzker quase lado a lado: o depósito de água e a biblioteca, ambos de Siza Vieira, e o departamento de Geociências, assinado por Souto Moura. É de facto uma enorme honra poder sublinhar estes factos e estar presente ao lado destes homens, a quem devemos tanto, num local que eles ajudaram a construir e a transformar num grande museu da arquitetura mundial.

Homenageamos três grandes arquitetos portugueses com projeção mundial. Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto de Moura e Alcino Soutinho.

Todos da Escola do Porto. E o Norte tem-se mostrado berço dos grandes da arquitetura nacional, que internacionalizaram, com o seu trabalho de excelência, Portugal.

Três estilos distintos.

Todos aclamados e consagrados internacionalmente, que deixaram marcas muito profundas nas gerações seguintes.

Três arquitetos cujos nomes já se transformaram em assinaturas, em marcas, de qualidade.

Homens do traço que nunca procuram soluções fáceis, mas disruptivas, que aliam o design ao conforto.

Alguns estarão mais habituados até a ser homenageados ou consagrados do que eu a fazer homenagens.

Homens merecedores do maior prémio mundial de Arquitetura. Ainda este ano o prémio Pritzker, o Nobel da arquitetura, foi atribuído em Março a Souto Mora e recebido pelas mãos do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; e não foi a primeira vez, como sabemos, que um arquiteto português o recebeu. Sucedera com Siza Vieira em 1992.

Arquitetos reconhecidos pela imprensa internacional,  dentro e fora de portas. Marcos na história da arquitetura portuguesa e internacional.

Mas também com profunda ligação ao património e à cultura portuguesa. Da mais erudita, à mais popular - o museu, o hotel, mas também a estação de metro, o estádio de futebol. Uma versatilidade assombrosa. Capazes de unir funcionalismo e beleza, numa linguagem pragmática e simples, mas bela. E lá fora, mostrando marcas distintivas da cultura do nosso país no traço e nas obras.

Une-os ainda uma profunda preocupação com as pessoas. Com a arquitetura vocacionada para as pessoas.

Recentemente, ainda esta semana, na entrega do Prémio Secil de Arquitetura, o arquiteto Eduardo Souto de Mora declarou que sem pessoas não há arquitetura - sem pessoas para caminhar, habitar e sonhar nas casas, não há arquitetura. Provavelmente, a arquitetura tem também a ver com os sonhos das pessoas que a habitam ou a irão habitar.

Ruy Belo escreveu um poema que evoca tudo isto, intitulado «O Problema da Habitação», onde se interrogava sobre «com que pontes, com que ruas, com que gentes, com que montes conviver», ou seja, onde se interrogava sobre o modo como devemos habitar a terra.

Creio que essa é uma interrogação a que os arquitetos tentam responder com a sua obra, com a invenção do espaço e de um lugar onde as pessoas possam abrigar os seus sonhos.

Minhas Senhoras e meus Senhores,

A Universidade de Aveiro é hoje uma instituição amplamente reconhecida pela excelência do seu ensino e da sua investigação. Uma instituição reconhecida também pelo papel que desempenha no desenvolvimento científico, cultural e económico desta região. Nos últimos anos, a Universidade de Aveiro cresceu para dentro e para fora das nossas fronteiras, correspondendo a um esforço de internacionalização que todas as nossas Universidades estão a fazer e que terão de continuar a fazer.

Uma Universidade é uma comunidade formada pelos seus professores, pelos seus alunos, pelos seus investigadores e pelos seus funcionários. É uma comunidade de transmissão do saber, de aprendizagem, de trabalho e de descoberta. É uma comunidade de conversação permanente, e nunca concluída, entre os seus membros. Fazer parte de uma comunidade destas é um enorme privilégio mas traz consigo também pesadas responsabilidades.

Além disso, a Universidade é também um lugar onde são ampliadas as capacidades das novas gerações para que possam ter um horizonte mais alargado de escolhas e de realização dos seus projetos de vida. Com a ascensão da chamada sociedade do conhecimento, as Universidades desempenham um papel ainda mais determinante no desenvolvimento dos povos, e na construção de sociedades mais modernas e mais democráticas. E vale a pena chamar a atenção para o facto de que, em sociedades modernas e democráticas, as estruturas da política, da economia e da sociedade também têm a função de alargar as oportunidades e capacidades das pessoas. Esse deve ser um critério fundamental na avaliação que fazemos de todas essas estruturas. Mas, no nosso País, elas muitas vezes falham essa missão decisiva.

As reformas que agora iniciaremos nas estruturas da nossa política e da nossa economia são, portanto, indispensáveis. Dir-se-á talvez que estas reformas não são consensuais. Nós queremos discuti-las com todos e queremos apresentar os nossos argumentos. Mas certamente que quem quer deixar tudo na mesma, quem não está disponível para a mudança, quem faz propostas que não são verdadeiras escolhas, mas exercícios de fantasia, quem quer deixar o País entregue ao declínio, à pobreza e ao isolamento, não estará interessado em ouvir o que temos para dizer. Estará a exercer a sua liberdade, com toda a certeza, mas a deixar mal a sua responsabilidade, que cresce, não o esqueçamos, na proporção do lugar que ocupa e do prestígio que recolhe junto dos seus concidadãos.

Nos próximos meses queremos, pois, que todos participem num grande debate nacional sobre as reformas estruturais que são o centro e a base do nosso programa de renovação da economia portuguesa. Reformas estruturais: este é um termo muitas vezes repetido, outras vezes usado com intentos muito diferentes. É algo abstracto e até intimidante. Gostaria por isso de dizer algo sobre o melhor modo de o entender. Reformas estruturais são aquelas reformas que, em vez de operar nas costas dos agentes económicos, preferem depositar junto destes agentes capacidades e oportunidades que muitas vezes as nossas leis e as nossas instituições lhes negam, mas de que precisam para as suas atividades e para os seus projetos. São reformas que criam capacidades, e não reformas dirigistas; reformas libertadoras, e não condicionadoras; são reformas que derrubam barreiras, e não reformas que constroem labirintos.

São políticas de estímulo económico, mas um estímulo que envolve os agentes e que convoca a sua atividade, um estímulo que opera descentralizadamente através da ação e da participação de todos, que encoraja sem manipular, que mobiliza sem falsear. Um estímulo que, em vez de rearranjar o gigantismo de algumas variáveis macroeconómicas, vai diretamente às raízes da produtividade, da inovação e do crescimento.

As reformas estruturais representam por isso um grande pacto entre o Estado e a Sociedade. Um pacto que abre um diálogo permanente entre, por um lado, o Estado e as instituições, e, por outro, as pessoas que querem prosseguir os seus projetos e atividades. São reformas destinadas a cultivar valores políticos fundamentais e expandir os limites dentro dos quais a atividade económica tem lugar.

Mas são simultaneamente reformas que preservam, respeitam e aumentam a autonomia dos agentes económicos, e que partem do pressuposto de que nada se deve fazer sem eles. A raiz do crescimento económico são as pessoas, as suas ideias, as suas capacidades, a sua criatividade, o seu trabalho. É este o centro que queremos recuperar.

Minhas senhoras e meus senhores,

Não é difícil perceber como a participação no mercado comum e na moeda única são um grande incentivo à realização destas reformas. Uma das grandes conquistas do projeto europeu foi tornar muito mais transparente a existência de setores protegidos e dos regimes de exceção que os governos europeus se possam sentir tentados a adoptar, com enorme custo para todos os contribuintes, para todos os consumidores e para os restantes produtores. Se um governo proteger uma empresa nacional contra a concorrência de outras empresas europeias, que funcionam no resto do mercado único, os custos para contribuintes e consumidores serão impossíveis de esconder. Outro mecanismo importante que nos obriga a aumentar a nossa produtividade, e a atender mais atentamente às necessidades dos agentes económicos, é a impossibilidade de operar desvalorizações cambiais, um paliativo que muitas vezes no passado nos distraiu de reformais mais fundamentais capazes de tornar as nossas empresas mais competitivas e inovadoras.

A sobrevivência e prosperidade da zona euro está por isso intimamente ligada à nossa capacidade de fazer estas reformas, de expandir as possibilidades da nossa economia e as capacidades das nossas empresas e trabalhadores. O euro representa para os Estados europeus o culminar de um projeto muito ambicioso de eliminação das restrições ao movimento de bens, serviços e pessoas. Qual é o significado deste projeto? Não é senão a construção de uma economia assente na democratização da iniciativa económica, no respeito pela liberdade dos agentes e pelas suas escolhas, no completo aproveitamento das suas capacidades e das suas ideias, no desenvolvimento de uma economia de todos, feita por todos e para benefício de todos.

A integração europeia exigiu e exige muito de nós. Sempre o fez. Foi sempre um programa de exigência. Sem receios fomos aumentando a ambição com que avançávamos neste grande projeto de reconciliar harmoniosamente os propósitos da democracia e da economia. Neste momento tão difícil em que talvez possamos duvidar da nossa capacidade de cumprir esse projeto, temos de recusar novamente todos os medos e recordar que os problemas nascem da dificuldade da tarefa e não das nossas fraquezas.

Quando falamos na democratização da iniciativa económica, é bom ter presente que na origem, na verdadeira raiz do crescimento económico estão as capacidades e qualidades individuais. É no capital humano e não no capital físico que tudo começa. As pessoas são o fim e os meios da atividade económica. Neste ponto, no entendimento perfeito deste ponto, o nosso país tem um imenso caminho a percorrer. Todos estão a par de como soubemos abrir mais oportunidades de progressão individual, como avançámos no objectivo de abrir os ensinos secundário e superior a muito mais pessoas. Em 1980, concluíram-se 28 doutoramentos em Engenharia e Tecnologia. Em 2008, concluíram-se 330. Estes números, que servem a título de exemplo, mostram bem tudo o que soubemos fazer nas últimas décadas, mas obrigam a uma reflexão séria.

Há ainda muito a fazer. Temos de garantir que as instituições de ensino superior possam desempenhar as suas responsabilidades, responsabilidades que são, em primeiro lugar, das próprias instituições: é aí, no seu interior, que se começa a ganhar a batalha da qualidade, para além dos sistemas de avaliação externa a que estão sujeitas.

Temos igualmente de aperfeiçoar a rede de instituições e formações, que se apresenta heterogénea e desequilibrada, coexistindo situações de elevada qualidade com casos problemáticos nos planos pedagógico, científico e de sustentabilidade. Assim sendo, a racionalização da rede de instituições de ensino superior e da sua oferta formativa, com vista a optimizar o uso de recursos disponíveis, é uma das medidas inscritas no programa de Governo, e cuja discussão iniciaremos já no próximo ano.

Mas temos de ir ainda mais longe. Onde falhámos até agora foi na harmonização da política de educação com o funcionamento da nossa economia. São demasiados os recursos económicos que continuaremos a desperdiçar se não soubermos fazer as reformas capazes de abrir mais oportunidades económicas aos nossos jovens, tão preparados como os melhores para fazer face aos novos desafios da economia mundial. Neste ponto, o exemplo da Universidade de Aveiro pode e deve servir de guia: na cooperação com a sociedade, na promoção de transferência do conhecimento, tecnologia e inovação, junto do tecido empresarial, no desenvolvimento de projetos de investigação reconhecidos internacionalmente, onde assumiu uma posição de liderança.

Quando não sabemos, e continuamos a não saber, aproveitar o nosso valioso capital humano, então é preciso concluir que a nossa estrutura económica tem de ser alterada, na exata medida em que for necessário para melhor desenvolver e aproveitar estas capacidades. Que sentido faria tornar a estrutura económica existente o fim último, e pedir às pessoas que se adaptassem como pudessem para que tudo fique na mesma - como se as pessoas não fossem mais do que instrumentos das instituições e das estruturas?

Concluo deixando este apelo à harmonização entre os objectivos políticos da nossa democracia e o funcionamento da economia. Confrontar o seu funcionamento deficiente é constatar que a nossa economia, em muitos aspectos, espera ainda um processo de democratização. Quando falamos em reformas estruturais é nesta democratização que pensamos. É essa a grande tarefa que nos aguarda.

Tags: primeiro-ministro, economia, união europeia, zona euro, ensino superior, reformas estruturais

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